As meias da vida
Há um tempo fiz uma postagem contando sobre um sonho juvenil — a tal meia arrastão e minha linda professora. Mas hoje percebo que minha história com meias começou bem antes, quando eu ainda era só uma menina de olhos atentos e desejos silenciosos.
Eu devia ter uns nove anos.
E lá vinha ela… a menininha loirinha, de jardineira azul, blusinha com rendas brancas aparecendo delicadamente no colo, e — o que mais me encantava — aquela meia branca até a canela.
A meia tinha duas bolinhas brancas penduradas na lateral, que balançavam no compasso da caminhada. Eu olhava para aquilo como quem contempla uma obra de arte renascentista. Quase ouvia trilha sonora ao fundo. (risos)
Ela estudava comigo. Não me percebia.
Mas eu percebia as meias dela. Intensamente.
Se eu pedisse, tenho quase certeza de que minha mãe compraria. Mas eu não pedia. Ficava só sonhando. Talvez porque fôssemos oito irmãos. Talvez porque, naquela época, pedir o supérfluo me parecesse um luxo que não combinava com a rotina de uma casa tão cheia de vida.
Minha mãe trabalhava muito e ajudava meu pai, também no que podia, na padaria. O básico nunca faltou — e isso já era milagre suficiente. Meias com bolinhas dançantes talvez não entrassem na categoria das prioridades celestiais. (risos)
Engraçado como certos desejos infantis não morrem. Eles adormecem. Ficam guardados numa gavetinha invisível da alma.
E então, esses dias, meu filho — conhecedor oficial das minhas histórias nostálgicas — estava em viagem. Lá longe, em Las Vegas. Segundo ele, foi realizar um sonho adolescente: assistir a um show do grupo que marcou os anos 90, o inesquecível Backstreet Boys. (Ele não saiu do Brasil para isso, porque já mora nos Estados Unidos. Logística resolvida, honra preservada.)
Enquanto esperava o voo no aeroporto, encontrou uma banca — imagine — só de meias diferentes.
E lembrou de mim.
— Mãe, vou levar para você.
Trouxe uma meia bordada com um bichinho que até hoje não sei identificar. E, na lateral, duas orelhinhas delicadas, lembrando — adivinhe — as bolinhas dançantes da minha infância.
Estou usando todos os dias nesse tempinho frio. (risos)
E acho lindo.
Mas não é só a meia.
É a vida fazendo um círculo perfeito.
É Deus, com Seu humor delicado, me mostrando que nenhum sonho inocente é esquecido. Alguns apenas atravessam o tempo… até amadurecerem.
Hoje entendo: não era sobre a meia.
Era sobre o encanto.
Sobre a capacidade de admirar o detalhe.
Sobre guardar beleza dentro de si, mesmo quando não se pode tê-la nas mãos.
E, no fim das contas, a menina que suspirava no pátio da escola continua aqui. Só que agora, além das meias com orelhinhas, ela aprendeu que os sonhos não precisam ser urgentes para serem verdadeiros.
Alguns chegam décadas depois — embrulhados em amor de filho.
E isso, convenhamos… combina perfeitamente com qualquer meia do mundo. 
Na imagem acima - A meia que meu filho me trouxe, calçando meus pezinhos delicados (risos)... Lindinha.

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