sábado, 7 de março de 2026

 

SILÊNCIO E REFLEXÃO

Há dias em que a gente está só… mesmo rodeada de pessoas que ama.
E está tudo bem. Não há nada de errado nisso.

Às vezes, a alma apenas pede silêncio.
Um silêncio que não é vazio — é encontro.

É quando a gente decide calar as vozes de fora,
aquelas que insistem em dizer quem devemos ser,
como devemos agir,
qual caminho devemos seguir.

Então, pouco a pouco, a gente silencia…
E nesse silêncio, algo dentro de nós começa a falar.
Um silêncio que, curiosamente, grita.

Ele nos chama de volta para dentro.
Para a nossa essência.
Para aquele lugar íntimo onde moram as perguntas sinceras
e também as respostas mais verdadeiras.

Nesse momento, vale fechar algumas portas.
Não dar acesso a tudo e a todos.
Guardar o coração.

Permitir entrar apenas aquilo que traz luz:
a presença suave do Espírito de Deus
e o encontro honesto consigo mesma.

É nesse recolhimento que a gente se escuta de verdade.
Que faz uma análise da vida, dos caminhos, das escolhas.

E, quem sabe…
com serenidade e coragem,
decide apenas ajustar os passos
e mudar a rota.
🌿

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

 

As meias da vida

Há um tempo fiz uma postagem contando sobre um sonho juvenil — a tal meia arrastão e minha linda professora. Mas hoje percebo que minha história com meias começou bem antes, quando eu ainda era só uma menina de olhos atentos e desejos silenciosos.
Eu devia ter uns nove anos.
E lá vinha ela… a menininha loirinha, de jardineira azul, blusinha com rendas brancas aparecendo delicadamente no colo, e — o que mais me encantava — aquela meia branca até a canela.
A meia tinha duas bolinhas brancas penduradas na lateral, que balançavam no compasso da caminhada. Eu olhava para aquilo como quem contempla uma obra de arte renascentista. Quase ouvia trilha sonora ao fundo. (risos)
Ela estudava comigo. Não me percebia.
Mas eu percebia as meias dela. Intensamente.
Se eu pedisse, tenho quase certeza de que minha mãe compraria. Mas eu não pedia. Ficava só sonhando. Talvez porque fôssemos oito irmãos. Talvez porque, naquela época, pedir o supérfluo me parecesse um luxo que não combinava com a rotina de uma casa tão cheia de vida.
Minha mãe trabalhava muito e ajudava meu pai, também no que podia, na padaria. O básico nunca faltou — e isso já era milagre suficiente. Meias com bolinhas dançantes talvez não entrassem na categoria das prioridades celestiais. (risos)
Engraçado como certos desejos infantis não morrem. Eles adormecem. Ficam guardados numa gavetinha invisível da alma.
E então, esses dias, meu filho — conhecedor oficial das minhas histórias nostálgicas — estava em viagem. Lá longe, em Las Vegas. Segundo ele, foi realizar um sonho adolescente: assistir a um show do grupo que marcou os anos 90, o inesquecível Backstreet Boys. (Ele não saiu do Brasil para isso, porque já mora nos Estados Unidos. Logística resolvida, honra preservada.)
Enquanto esperava o voo no aeroporto, encontrou uma banca — imagine — só de meias diferentes.
E lembrou de mim.
— Mãe, vou levar para você.
Trouxe uma meia bordada com um bichinho que até hoje não sei identificar. E, na lateral, duas orelhinhas delicadas, lembrando — adivinhe — as bolinhas dançantes da minha infância.
Estou usando todos os dias nesse tempinho frio. (risos)
E acho lindo.
Mas não é só a meia.
É a vida fazendo um círculo perfeito.
É Deus, com Seu humor delicado, me mostrando que nenhum sonho inocente é esquecido. Alguns apenas atravessam o tempo… até amadurecerem.
Hoje entendo: não era sobre a meia.
Era sobre o encanto.
Sobre a capacidade de admirar o detalhe.
Sobre guardar beleza dentro de si, mesmo quando não se pode tê-la nas mãos.
E, no fim das contas, a menina que suspirava no pátio da escola continua aqui. Só que agora, além das meias com orelhinhas, ela aprendeu que os sonhos não precisam ser urgentes para serem verdadeiros.
Alguns chegam décadas depois — embrulhados em amor de filho.
E isso, convenhamos… combina perfeitamente com qualquer meia do mundo. ✨
Na imagem acima - A meia que meu filho me trouxe, calçando meus pezinhos delicados (risos)... Lindinha.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

 

NUMA ENCRUZILHADA, PRECISAMOS DECIDIR.

Sabe aquela situação em que você está diante de uma encruzilhada — e nenhum dos caminhos parece simples?
Pois é.
Assim estava eu.
Pensava. Perguntava ao meu marido. Conversava com os filhos. Orava. Lia a Bíblia. Esperava um sinal.
Mas, no fundo, eu já tinha escolhido.
E a escolha que eu havia feito inicialmente era a mais confortável.
Aquela que não exigia processo.
Não exigia desgaste.
Não exigia atravessar inseguranças.
Eu queria permanecer na minha zona de conforto. Ali era seguro. Ali eu sabia como tudo funcionava. Ali não havia riscos.
Só que, ao mesmo tempo, eu queria ouvir claramente de alguém — de preferência de Deus — que aquela era a decisão certa.
Passei semanas angustiada. Com raiva. Triste. Inquieta. Chorei.
Todos, com uma serenidade quase irritante (risos), deixaram a decisão em minhas mãos.
Em certo momento pensei:
Ah, se eu fosse criança… A mãe decide e pronto. Criança não carrega esse peso.
Mas eu não era mais criança.
Clamei:
— Senhor, responde-me como respondias a Davi.
Davi perguntava, e Deus dizia “vá” ou “não vá”. Às vezes ainda entregava a estratégia inteira.
Eu só queria uma confirmação:
— Está certa essa escolha confortável, pode ficar tranquila.
Mas o céu permaneceu silencioso.
Nenhuma palavra específica na Bíblia.
Nenhum vídeo “coincidentemente” esclarecedor.
Nenhuma frase sublinhada saltando aos meus olhos.
Nada.
O prazo estava acabando.
Aiaiai.
Foi então que compreendi algo desconcertante:
Deus não estava em silêncio.
Ele estava esperando que eu crescesse.
Naquela noite fiz uma oração diferente:
— Senhor, amanhã eu vou decidir. Não sei qual a melhor escolha. Mas tem uma que não quero enfrentar. Mas vou escolher e o Senhor confirma com a Tua paz.
No dia seguinte, respirei fundo.
E escolhi exatamente o que eu estava evitando.
O caminho que exigia processo.
Mudança.
Desconforto.
Coragem.
E então…
Veio uma paz.
Não uma paz tímida.
Uma paz que transbordava.
Uma alegria serena, firme, inesperada.
Ali entendi: A escolha confortável não me faria crescer, me faria desistir de algo que já havia conquistado, por medo de enfrentar todo o processo. O Senhor já havia me dado. Eu estava olhando as circunstâncias, que não eram favoráveis aos meus olhos. O processo que eu temia era o instrumento do meu amadurecimento.
Deus não me empurrou.
Não gritou.
Não deu um “sim” ou um “não” audível.
Ele confiou em mim, na minha decisão. Creio que estava me guiando na escolha.
E, depois que decidi, Ele foi comigo em cada etapa do caminho difícil. No cansativo. No incerto. No novo. No inseguro. Ele me conduziu de maneira surpreendente... Me fez lembrar de outros eventos, nos quais deu livramento à minha família, quando atravessamos uma situação idêntica. Me dizendo: Lembra daquela vez? E o que Eu fiz?!... Pode ir. Faço o mesmo se necessário for. UAU!!! QUE DEUS GRANDIOSO!
Não me livrou do processo.
Mas me sustentou nele.
Descobri que Deus responde de quatro formas:
Sim.
Não.
Espera.
E… decida.
E quando decidimos com fé, Ele confirma com paz.
Que lindo isso.

sábado, 17 de janeiro de 2026

 

Uma lembrança feliz

Há cerca de dois anos, durante um curso sobre como falar em público, o professor nos propôs um exercício simples, mas profundamente revelador: Voltar, em pensamento, a um lugar onde tivéssemos nos sentido verdadeiramente bem, inteiros, em paz.

Naquele instante, percebi algo em mim. Havia tempos que eu não me sentia completa. Uma sensação silenciosa de ausência, como se algo precioso estivesse faltando dentro de mim. Respirei fundo e permiti que a memória me conduzisse, com delicadeza, até um tempo em que a alma repousava segura.

Sim, minha vida foi marcada por muitas conquistas — o primeiro emprego, o casamento, a formatura em Direito, os filhos. São capítulos importantes, cheios de significado. Mas eu buscava algo anterior às dores, um tempo em que o coração ainda não conhecia o peso dos traumas. Buscava um lugar onde Deus caminhava comigo de forma leve, quase imperceptível, mas constante.

E então cheguei ali.

Voltei nos anos 80, naqueles dias em que passei no vestibular de Matemática para estudar no MIT/GV. Lembro-me do espanto e da gratidão. Aquela faculdade, que aos meus olhos parecia inalcançável naquele momento, tornou-se possível... O primeiro emprego veio, e com ele a possibilidade de iniciar aquele sonho cuidadosamente conduzido por Deus. Parecia que tudo se encaixava.

Caminhava pelo pátio como quem pisa em terra abençoada. Observava o chão, o verde, as plantas, as flores. Subia as escadas ao som das vozes jovens, alegres, cheias de esperança. Ali, todos carregavam sonhos — e, de alguma forma, todos começavam a realizá-los. Eu também.

Naqueles dias, não havia medo. Nada doía. Nada me exigia além do que eu podia oferecer. A vida parecia sorrir com suavidade. Tudo era calmo, tudo era leve, tudo era bom, tudo era pleno. Me sentia como se Deus estivesse ali, em silêncio, confirmando: está tudo certo.

Eu estava feliz. Livre. Inteira. E, sobretudo, agradecida.
Hoje compreendo que aquele lugar não era apenas físico. Era um estado de espírito. Um tempo em que minha alma descansava sob o cuidado de Deus. Tudo estava perfeito.

É esse estado que desejo preservar. Voltar a ele sempre que possível. Permanecer no presente, mas ali naquele estado de espírito, com fé, gratidão e confiança. Porque, mesmo quando a vida muda, Deus permanece.


💭 Para reflexão

Às vezes, voltar a uma lembrança feliz não é nostalgia — é reencontro. É lembrar quem fomos quando a fé ainda era simples, o coração leve e a esperança natural. Talvez esse seja o convite de hoje: descansar por um instante onde Deus já nos fez inteiros.



segunda-feira, 12 de janeiro de 2026


 MULHER EM RECONFIGURAÇÃO.

ESCREVO COMO QUEM ORA.
Cada palavra nasce daquilo que vivi, sobrevivi e confiei.
Minha história começa no interior, onde a vida tinha cheiro de pão quente e o tempo parecia mais lento. Filha de comerciante, cresci entre balcões e silêncios, sem compreender o mundo, mas sentindo-o por inteiro.
Deus já me ensinava ali, no simples, que nada acontece sem propósito. Quando parti para a cidade grande, levei comigo uma menina assustada e um coração cheio de esperança.
Lutei pelo primeiro emprego e o alcancei por meio de concurso público. Não foi acaso, foi cuidado. Trabalhei, aprendi, fiz amigos que se tornaram abrigo.
Fundei um grupo de jovens e descobri que servir também é amar.
Deus me conduzia, mesmo quando eu não percebia. Mais adiante, outro chamado. Um novo concurso, o Serviço Público Federal, e anos de entrega silenciosa. Caminhei com responsabilidade, cresci em conhecimento e humanidade, até o tempo da aposentadoria chegar.
Mas Deus não encerra histórias — Ele as transforma. Recomecei como advogada previdenciária e compreendi que meu trabalho era, na verdade, missão: ajudar pessoas a se organizarem, a entenderem seus caminhos e a resgatarem dignidade.
Então veio a noite mais escura. A partida da minha filhinha amada rasgou minha alma. Atravessei um deserto onde não havia respostas, apenas fé. E foi ali, no chão da dor, que Deus me sustentou nos braços, quando eu já não conseguia caminhar.
Chorei, calei, esperei. E Ele permaneceu. Hoje, levanto-me devagar, com reverência pela vida.
Estudo psicanálise para compreender minhas próprias profundezas. Até as feridas podem ser lugar de encontro com Deus.
Houve uma reconfiguração em mim: não perdi a fé, ela me refez. Me sinto jovem, sem negar o que fui.
Sinto-me como alguém que recomeça aos 18 anos, cheia de sonhos e expectativas, mas agora com a maturidade de quem sabe que o controle nunca esteve em suas mãos.
Está nas d’Ele. Caminho com os pés no chão, o coração aberto e a certeza serena de que Deus está no comando. E isso me basta.