MULHER EM RECONFIGURAÇÃO.
ESCREVO COMO QUEM ORA.
Cada palavra nasce daquilo que vivi, sobrevivi e confiei.
Minha história começa no interior, onde a vida tinha cheiro de pão quente e o tempo parecia mais lento. Filha de comerciante, cresci entre balcões e silêncios, sem compreender o mundo, mas sentindo-o por inteiro.
Deus já me ensinava ali, no simples, que nada acontece sem propósito. Quando parti para a cidade grande, levei comigo uma menina assustada e um coração cheio de esperança.
Lutei pelo primeiro emprego e o alcancei por meio de concurso público. Não foi acaso, foi cuidado. Trabalhei, aprendi, fiz amigos que se tornaram abrigo.
Fundei um grupo de jovens e descobri que servir também é amar.
Deus me conduzia, mesmo quando eu não percebia. Mais adiante, outro chamado. Um novo concurso, o Serviço Público Federal, e anos de entrega silenciosa. Caminhei com responsabilidade, cresci em conhecimento e humanidade, até o tempo da aposentadoria chegar.
Mas Deus não encerra histórias — Ele as transforma. Recomecei como advogada previdenciária e compreendi que meu trabalho era, na verdade, missão: ajudar pessoas a se organizarem, a entenderem seus caminhos e a resgatarem dignidade.
Então veio a noite mais escura. A partida da minha filhinha amada rasgou minha alma. Atravessei um deserto onde não havia respostas, apenas fé. E foi ali, no chão da dor, que Deus me sustentou nos braços, quando eu já não conseguia caminhar.
Chorei, calei, esperei. E Ele permaneceu. Hoje, levanto-me devagar, com reverência pela vida.
Estudo psicanálise para compreender minhas próprias profundezas. Até as feridas podem ser lugar de encontro com Deus.
Houve uma reconfiguração em mim: não perdi a fé, ela me refez. Me sinto jovem, sem negar o que fui.
Sinto-me como alguém que recomeça aos 18 anos, cheia de sonhos e expectativas, mas agora com a maturidade de quem sabe que o controle nunca esteve em suas mãos.
Está nas d’Ele. Caminho com os pés no chão, o coração aberto e a certeza serena de que Deus está no comando. E isso me basta.

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