sábado, 22 de agosto de 2026

 EU E MINHA PRIMEIRA CANETA

Hoje estava aqui pensando em porque gosto tanto de registrar momentos... Estou sempre escrevendo sobre eles, tentando guardar em palavras aquilo que, de alguma forma, tocou meu coração.
Pois é... acho que isso vem de criança.
Lembro-me de que estava na quarta série. Minha professora era linda: jovem, alta, esguia, com unhas compridas, bem cuidadas e sempre esmaltadas. Vestia-se lindamente, e eu a admirava.
Certa vez, enquanto ela dava aula normalmente, eu estava ali, no meu mundinho infantil, completamente envolvida com uma coisa que, para mim, naquele momento, era muito importante: minha caneta.
Era a primeira caneta que eu havia ganhado. Antes dela, eu só escrevia com lápis.
E então comecei a escrever sobre aquela caneta de tinta azul.
Não sei exatamente o que escrevi. Só me lembro de que coloquei tanta emoção naquelas palavras que o texto ocupou quase metade de uma folha do caderno. Uau!...
Mas aquilo era segredo. Era para guardar somente para mim.
Eu achava que não era normal escrever sobre uma caneta. Afinal, quem é que escreve sobre uma caneta? Não tinha nada a ver... (risos).
Mas eu estava ali, derramando todo o meu amor naquela folha.
Parecia que eu não estava mais na sala de aula. Eu havia viajado para outro lugar. Naquele instante, éramos apenas eu e minha caneta azul. Nada mais existia.
De repente:
— Aparecida, o que você está fazendo? O que está escrevendo? — perguntou minha professora.
Escondi a folha depressa.
Queria desaparecer naquele momento.
— Nada! — respondi.
Mas ela insistiu e, num movimento rápido, pegou o papel da minha mão.
Ai, meu Deus!
Que constrangimento! Que vergonha do que eu havia escrito! Eu queria sumir, mas não havia para onde ir.
Ela leu.
Depois, dobrou cuidadosamente a folha e me entregou.
Eu, envergonhada, com uma vontade enorme de chorar, guardei o papel dentro do meu caderno. Algum tempo depois, a folha desapareceu.
E assim ficou o segredo.
Somente ela, minha linda professora, e eu sabíamos o que estava escrito ali.
Hoje, nem eu sei mais. (risos)
Mas me lembro perfeitamente do que senti naquele momento.
Era como se ela tivesse conseguido enxergar dentro de mim. Como se, ao ler aquelas palavras, tivesse descoberto um pedacinho dos meus pensamentos, dos meus sentimentos e daqueles pequenos segredos que uma criança nem sempre sabe explicar.
Criança passa por cada coisa...
Naquela época, quase ninguém parava para ouvir o que se passava dentro de um coraçãozinho infantil. Os medos, as descobertas, os sonhos, as emoções... Muitas vezes, tudo isso ficava guardado, porque a criança ainda não sabia traduzir em palavras aquilo que sentia.
Creio que minha professora não fez por mal. Talvez apenas não tivesse percebido a importância daquele momento para mim. Talvez a abordagem pudesse ter sido outra: conversar comigo, perguntar o que eu estava sentindo, incentivar aquela menina que, tão pequenininha, já gostava de transformar sentimentos em palavras.
Quem sabe...
Talvez eu tivesse descoberto muito antes que havia uma escritora escondida dentro de mim.
Ou, quem sabe, aquela caneta azul já estivesse apenas anunciando o que viria muitos anos depois.
Afinal, algumas histórias começam de um jeito tão simples que a gente nem percebe que está diante do primeiro capítulo.